Sejam bem vindos (as)

Uma biografia de Freud

O interesse pela biografia de Freud tem uma motivação maior do que simplesmente a de se conhecer datas e fatos relativos à sua pessoa. A teoria que ele criou parece estar inextricavelmente associada às peculiaridades da sua vida e conhece-las é, pois, essencial para bem compreender-se o que ele produziu teoricamente.

Jacob, o pai de Freud, nasceu em 1815 na Tismênica, cidadezinha que ficava localizada na Galícia Oriental, província do antigo Império Austro-Húngaro. Amalie Nathason, sua mãe, também nasceu lá, em 1835. Assim, ela era cerca de 20 anos mais nova que o marido e foi, como se verá, a terceira esposa do pai de Freud.

As gerações mais antigas da família tinham o sobrenome Freide, que, em algum momento, mudaram para Freud, talvez por motivos religiosos. Ainda jovem, ele também mudou seu prenome, de Sigismund para Sigmund, por razões que não são bem conhecidas.

O avô de Freud era mascate e tinha o costume de levar o filho Jacob (que viria ser o pai de Freud) em suas andanças, o que deve ter possibilitado a este adquirir uma visão de mundo além da estrita cultura judaica. O pai de Freud comerciava lãs entre as províncias da Galícia e da Moravia, e num certo momento mudou-se da primeira para a segunda, onde Freud viria a nascer. Aos dezesseis anos, ainda em Tismênica, desposou Sally Kaner com quem teve dois filhos: Emmanuel (nascido em 1832) e Philippe (nascido em 1836). Sally faleceu em 1852, após o que Jacob parece ter vagado por vários lugares na Europa e ter tido uma breve união com uma outra mulher, chamada Rebeca, da qual tem-se poucas notícias. Em 1855, casou-se novamente com aquela que viria a ser a mãe de Sigismund. Nesta época ele já era avô porque seu filho mais velho do primeiro casamento já tivera o primeiro de seus filhos, John, nascido em 1854. Uma segunda filha dele, Pauline, nasceria em 1856 e uma terceira, Berta, em 1859.

Freud nasceu as 18:30 horas do dia 06 de maio de 1856, uma terça-feira, em Freiberg, uma cidadezinha de 6.000 habitantes, no nordeste da Morávia. A cidade estava localizada em território do que era, na época, o Império Austro-Húngaro, mas que com as mudanças de fronteiras posteriores fica hoje localizada na República Tcheca. Freiberg, atualmente Pribor, dista 240 km. de Viena, para onde a família de Freud se mudou, quando ele tinha pouco mais de três anos de idade, e lá se estabeleceu, depois de ter passado alguns meses em Leipzig.

O Império Austro-Húngaro era, na época, uma vasta extensão de terras que incluía, além das atuais Áustria e Hungria, parte do norte da Itália e daquilo que veio a ser a Iugoslávia, além de outros territórios vizinhos. O Império orgulhava-se de seu poderio, tinha um Imperador jovem - Francisco José - e uma bonita Imperatriz - Sissi.

Freud viveu quase toda a sua vida em Viena e só deixou a cidade em 1938, um ano antes de sua morte, vitimado pela perseguição que os nazistas moviam aos judeus e da qual tanto ele como sua família foram alvos. Sua filha Ana chegou a ser presa e interrogada pela Gestapo e quatro de suas cinco suas irmãs morreram em campos de concentração. Graças ao reconhecimento internacional com que já contava e às intervenções do embaixador dos Estados Unidos, William Bullitt, e da condessa Marie Bonaparte, da Grécia, os alemães permitiram a emigração de Freud para Londres. Suas obras, no entanto, foram proibidas de circular e queimadas em praça pública.

O fato de ter vivido em Viena não foi sem conseqüências benéficas. Em fins do século XVIII e início do XIX a cidade era exuberante em todos os sentidos. As artes e as ciências estavam em pleno florescimento e ela disputava com Paris a liderança mundial da cultura. Lá trabalharam os principais luminares de vários campos do conhecimento e, na Medicina, quase todos foram professores de Freud.                   

Sigismund foi o primeiro filho do terceiro casamento de seu pai e teve sete irmãos, dos quais apenas ele e o caçula, Alexander, exatamente dez anos mais novo que ele, eram homens. Aquele que seria o terceiro homem (Julius, o segundo filho de Amalie), morreu ainda recém nascido, quando Sigismund contava dezenove meses de idade. Refletindo o espírito da época e já demonstrando gosto pelas analogias, de que foi pródigo, Freud comparava sua família a um livro, do qual ele e o irmão constituíam a capa que protegia páginas, as irmãs Ana, Rosa, Marie, Adolphine e Paula.

Quando Sigismund nasceu, sua mãe tinha vinte e um anos e seu pai, mais de quarenta. Seu sobrinho e principal companheiro de infância era um ano e meio mais velho que ele e Pauline, a sobrinha, apenas seis meses mais nova. Muitos autores-biógrafos acham que esta peculiar constituição da família tenha sido muito intrigante para a criança e tenha motivado algumas das as suas futuras teorias.

A família era de posses modestas e quando o ramo de negócios de seu pai entrou em crise este foi forçado a mudar-se para Viena, onde ele continuou no mesmo ramo de atividade, mas provavelmente passou a receber também ajuda de Emmanuel e Philippe, que haviam emigrado para Manchester, na Inglaterra, onde tinham se tornado relativamente prósperos.

Freud parece ter sido, desde pequeno, muito devotado aos estudos. Por sete anos seguidos foi o primeiro de sua turma e graduou-se no Gymnasium com louvor, aos 17 anos. Leu Shakespeare desde pequeno e para ler o Dom Quixote no original, aprendeu sozinho o espanhol. Sua aversão pela música, no entanto, era proverbial, no que parece ter contado com apoio dos que o cercavam. Quando entravam em conflito o piano da irmã e os estudos dele, a família sempre se decidia em favor do segundo. No entanto, quando adulto, costumava ir à opera de Viena.

Na infância, Freud teve uma babá que o levava à missa católica, mas ele nunca chegou a aderir a qualquer convicção religiosa. Ao contrário, escreveria mais tarde, em 1927, o texto O futuro de uma Ilusão, no qual consideraria as religiões como falácias. Por toda a vida, no entanto, conservou hábitos judeus. Ao completar trinta anos de idade, seu pai presenteou-lhe com uma Bíblia, que ele parece ter lido apenas com interesse científico.

Em sua juventude Freud era inclinado à especulação, a qual foi depois substituída por apaixonada defesa do empirismo e à qual retornaria em seus textos do final da vida. Depois de cogitar de uma carreira de Direito, cogitação que logo abandonou, estudou Medicina, ingressando na Universidade de Viena em 1873, graduando-se a 30 de março de 1881. Os oito anos que passou na Faculdade, quando o seu curso podia ter sido concluído em cinco, não foram devidos à insuficiência de seus dotes intelectuais, mas aos interesses diversificados que o levaram a atividades a que não estava obrigado, inclusive aulas de filosofia, com Franz Brentano. Segundo ele, sua decisão pela Medicina foi tomada ao ouvir uma conferência de Karl Brühl sobre o poema de Göethe, ’Da Natureza’. É interessante observar que ela tenha sido motivada não por uma sessão em que se exibisse um conhecimento empírico da Natureza, mas por uma que a tratava de forma especulativa.

Mais tarde ele diria que em nenhum momento sentia uma inclinação especial pela carreira de médico... e era movido, antes, por uma espécie de curiosidade dirigida para o gênero humano do que para os objetos naturais’ e que ‘depois de 41 anos de atividade médica, meu auto-conhecimento me diz que nunca fui realmente um médico no sentido próprio. Tornei-me médico ao ser compelido a me desviar de meu propósito original; e o triunfo de minha vida consiste em eu ter, depois de uma longa e tortuosa jornada, encontrado o caminho de volta para minha trajetória inicial”. (Pós-Escrito de 1927 a “Um Estudo Autobiográfico”, ESB., Imago Editora, Vol. XX).

Entre 1876 e 1882 Freud trabalhou no laboratório de fisiologia de Ernst Brücke, o qual abandonou a conselho do mestre, premido por necessidades financeiras. A partir de 1882 prestou serviços em diversos departamentos do Hospital Geral de Viena, de modo especial no de neuropatologia, então chefiado pelo Dr. Scholz. Aos 29 anos tornou-se professor de neuropatologia.

Em 1884 recebeu de um laboratório farmacêutico, para estudos, amostras de uma planta originária da América do Sul, a coca. Sem saber ainda dos malefícios do seu princípio ativo, a cocaína, entusiasmou-se com as suas propriedades euforisantes e anestésicas e pensou que ela poderia ser útil no tratamento da neurastenia. Ao usá-la na tentativa de tratar um colega de trabalho no laboratório de fisiologia, o qual adquirira um vício pela morfina, acabou ocasionando a substituição daquela dependência pela da cocaína, da qual aquele amigo veio a falecer. Deixou escapar por pouco o reconhecimento do efeito anestésico dela e o mérito a respeito coube a Koeller, um oftalmologista, que a usou com esse propósito em cirurgias oculares. 

Como precisava ganhar dinheiro, entre outras razões porque desejava casar-se, Freud acabou acatando o conselho de Brücke e começou a atender pacientes. Iniciou sua clínica como neurologista e logo se interessou pela histeria, à época muito incidente e ainda misteriosa. Freqüentemente a enfermidade confundia-se com condições neurológicas porque seus sintomas às vezes consistiam em paralisias, espasmos, tremores etc. O tratamento dela envolvia, então, eletroterapia, massagens, repouso e... sugestão hipnótica.

Em 1892 um prestigioso médico vienense, Joseph Breuer (1845-1925), que conhecera no laboratório de Brücke, relatou-lhe o tratamento de um caso de histeria que havia conduzido dez anos antes - entre dezembro de 1880 e junho de 1882 -, no qual utilizara a hipnose de um modo diferente do tradicional. Empregara-a não para produzir sugestão, mas para possibilitar uma conversação minuciosa com a paciente - que passou à história da psicanálise com o codinome de Ana O -, durante a qual ela conseguia acesso a lembranças que já haviam sido perdidas na vida de vigília, mas que guardavam relações com seus sintomas. Ao recordá-las a moça experimentava as emoções que deveriam ter sido desencadeadas pelas situações originais, mas que por quaisquer motivos não haviam sido expressas então. Dessa maneira ele verificou que rastreando os sintomas até suas origens eles desapareciam, sem que nenhuma sugestão tivesse de ser feita nesse sentido. A esse modo novo de usar a hipnose ele denominou método catártico. Breuer deparou-se, contudo, com o que julgou ser uma complicação do seu método: a paciente desenvolveu fortes emoções eróticas a seu respeito e ele, assustado, abandonou o caso e essa forma de tratar.

Freud sentiu-se vivamente interessado pelo método e começou a praticá-lo, verificando que os fatos relatados por Breuer ocorriam com regularidade e eram comuns a todas as pessoas. Sob hipnose era possível recuperar lembranças perdidas que ao serem recordadas mobilizavam emoções que haviam sido retidas à época dos acontecimentos originais. Os sentimentos eróticos surgiam sempre, mesmo quando o hipnotizador não oferecesse qualquer pretexto para tal, fato que mais tarde ele viria a denominar transferência e que se tornaria a pedra angular da terapia psicanalítica.

Abandonando a hipnose, Freud criaria o método das associações livres, utilizado atualmente. A partir daí e de outras experiências mais, ele observara que mantendo as pacientes recostadas sobre um divã e deixando-as falar livremente sobre tudo que lhes ocorresse à mente, poderia chegar a resultados parecidos com os do método catártico. Observou que tanto hipnotizadas quanto em vigília as pacientes apresentavam dificuldades e mesmo oposições em resgatar recordações penosas e chamou a isso de resistência. Na hipnose procurava vence-las de modo ativo, por meio de sugestões, persuasões e pressões; com a paciente acordada tentava supera-las conversando sobre elas, tornando-as conscientes, isto é, realizando uma análise psíquica, como dizia na época.

Depois de vencer a barreiras que se antepunham a um judeu, recebeu uma bolsa para estagiar em Paris, com Charcot, no hospital de La Salpetiere, onde esteve entre outubro de 1885 e março de l886. Lá aprendeu que a histeria podia ser criada e removida por meio da hipnose, prática que não era bem vista no meio científico de Viena. Com o fito de aperfeiçoar-se na sugestão hipnótica voltou à França em 1889, desta vez a Nancy, onde estagiou com Liebault e Bernheim.

Na volta de seu estágio em Paris, abriu seu consultório em Viena, na Rthausstrasse, em 07 de abril de 1886 e em setembro do mesmo ano casou-se com Marta Bernays, de Hamburg, com a qual achava-se comprometido desde junho de 1882. Com ela trocou uma copiosa correspondência, hoje inteiramente publicada. (Mais de 900 cartas!).

Parece ter tido uma vida conjugal feliz da qual resultaram seis filhos. [Mathilde (1887), Jean Martin (1889), Oliver (1891), Ernst (1892), Sophie (1893) e Ana (1895)], dos quais só a última seguiu seus passos e se tornou psicanalista.

Freud publicou em 1893, juntamente com Breuer, os Estudos Sobre a Histeria, nos quais pode-se ver a passagem progressiva do método catártico para o das associações livres. Neles, Breuer lançou sua famosa idéia dos estados hipnoides, para justificar que as emoções ficassem retidas originariamente, à qual Freud aderiu a princípio e rejeitou logo depois. Por tais estados ele entendia certas condições especiais que alteravam a estrutura normal da consciência, como aquelas geradas pela fadiga, pelo susto, pela dispersão etc., que dificultavam e expressão emocional.

Em 1897 Freud iniciou sua auto-análise, baseada em seus sonhos, a qual não só foi-lhe de grande valia pessoal como contribuiu para uma melhor compreensão de muitos pontos de sua teoria. Sua obra A Interpretação dos Sonhos (ESB, Editora Imago, vols. IV e V, 1974), que publicou em 1899, datada de 1900, foi, em parte pelo menos, resultado dela e relata como exemplos muitos de seus sonhos.

Neste mesmo ano Freud conheceu Emil Fliess, um obscuro otorrinolaringologista de Berlim que acreditava na relação das neuroses com a mucosa nasal e por quem desenvolveu uma grande (e injustificada!) admiração. São também de Fliess as idéias de uma periodicidade masculina e outra, feminina e a da bissexualidade. (Essa última, adotada por Freud, irá jogar um importante papel na sua teoria das neuroses). A partir de então é a ele que Freud passa a comunicar suas idéias emergentes e a submeter seus manuscritos. Fliess passa a ser o seu público privado e seu referencial. Esse encantamento parece ter fornecido dimensão transferencial à auto-análise que Freud desenvolvia então mas nos primeiro anos do novo século rompeu com essa ligação, depois de um longo período de divergências que foi minando-a.  

Até 1891 Freud morou com sua família no número 8 da Maria Theresienstrasse e a partir dai na 19, Bergasse, de onde só saiu em 1938, para transferir-se para Londres. Nesse endereço ele atendeu seus pacientes, escreveu seus trabalhos, reuniu seus seguidores e criou sua família, por quase 40 anos.

Freud escreveu em alemão, língua falada na Áustria, o que tem motivado várias questões quanto à tradução de sua obra para outros idiomas. Vários autores, entre os quais Bruno Bethelheim, P-B Pontalis e Kemper, entre nós, escreveram sobre o fato e mostraram que, entre outros problemas, as nuanças de certas palavras alemãs não têm exatos equivalentes em outros idiomas, o que muitas vezes levou os tradutores a falsear as idéias do autor. De fato, o idioma alemão é mais apto para expressar vivências interiores do que, por exemplo, o inglês, mais afeito ao que é objetivo, técnico e pragmático.

Aos poucos ele foi se convencendo do papel da vida sexual na etiologia das neuroses, ao mesmo tempo em que foi refinando suas concepções sobre a sexualidade e diferenciando-a da mera genitalidade. Em 1894 suas teses a respeito já estavam bem sedimentadas e como Breuer não as referendou, começou a dar-se um afastamento entre eles, o qual se completaria em 1896. Pouco depois, Freud elaboraria suas teorias sobre as defesas, as quais iriam consolidar as idéias sobre o inconsciente reprimido.

Até 1897 Freud acreditava que o neurótico, quando criança, fora vítima de abuso sexual por parte de um adulto ou de uma criança maior, mas aos poucos foi mudando esse ponto de vista, já que tal ocorrência, embora relatada por eles, em geral não encontrava comprovação na realidade. Constatou, então, que os episódios relatados pelos pacientes eram meras fantasias, conseqüência de impulsos interiores, e que a realidade psíquica não era uma cópia fiel da realidade fática. Abrira, assim, as portas para a compreensão da vida de fantasias, a qual viria a ter tão grande importância em suas teorias.

As décadas de 1890 e 1900 foram cruciais para o desenvolvimento da Psicanálise. Depois de ter publicado com Breuer os Estudos Sobre a Histeria, em 1899 veio à luz A Interpretação dos sonhos; em 1902 tornou-se professor da Universidade de Viena e iniciou, com alguns discípulos, a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, que logo se tornou Sociedade Psicanalítica de Viena; em 1905 , no caso Dora, ele reconheceu de modo explícito o papel da transferência; em 1910 nasceu a Internacional Psycho-Analytical Association (IPA), que existe até hoje.

Mas, mesmo depois, continuou a produzir idéias. Em 1914 concebeu a tese do narcisismo; em 1920 formulou a segunda tópica; em 1923 chegou a uma nova tese sobre os impulsos, dividindo-os em pulsões de vida e de morte.

Sua paixão pelo passado levou a colecionar pequenas peças e estatuetas antigas, as quais mantinha cuidadosamente arrumadas em seu gabinete de trabalho. Quando de sua imigração, os nazistas, provavelmente considerando-as velharias, permitiram que fossem levadas consigo para Londres, onde repousam no Freud Museum, na casa onde morreu.

O interesse de Freud pela arqueologia não deve causar surpresa, pois ele mesmo registrou, já quase no final da vida, em 1937, que “seu trabalho [do analista] de construção, ou, se preferir-se, de reconstrução, assemelha-se muito à escavação, feita por um arqueólogo, de alguma morada que foi destruída e soterrada, ou de algum antigo edifício. Os dois processos são de fato idênticos, exceto pelo fato de que o analista trabalha em melhores condições e tem mais material à sua disposição para ajudá-lo, já que aquilo com que está tratando não é algo destruído, mas algo que ainda está vivo — e talvez por outra razão também. Mas assim como o arqueólogo ergue as paredes do prédio a partir dos alicerces que permaneceram de pé, determina o número e a posição das colunas pelas depressões no chão e reconstrói as decorações e as pinturas murais a partir dos restos encontrados nos escombros, assim também o analista procede quando extrai suas inferências a partir dos fragmentos de lembranças, das associações e do comportamento do sujeito da análise”. (Construções em Análise. ESB, 1974, vol. XXIII. p. 293).

Neste mesmo ano de 1923 foi acometido por um câncer na mandíbula, o qual o molestou pelo resto da vida e que motivou mais de trinta cirurgias. Mesmo assim, continuou atendendo e escrevendo e alguns de seus mais importantes trabalhos são posteriores a esta época.

Em 1938 os alemães invadiram a Áustria e ele foi perseguido. Contudo, os nazistas permitiram a ele que emigrasse. Seu destino foi a Inglaterra, onde morreu a 23 de setembro de 1939, na casa de número 20, de Maresfield Garden, Londres. Lá ainda produziu vários artigos, deixando sem concluir o Esboço de Psicanálise (ESB, Imago Editora, vol. XXIII), no qual trabalhava ao expirar. Freud foi cremado e suas cinzas repousam em Londres, no interior de um vaso grego, pertencente à sua coleção de peças arqueológicas antigas.

Módulo 1 - O Surgimento da Psicanálise

Junto com Copérnico e Charles Darwin, Freud revolucionou a maneira do ser humano ver a si mesmo dentro do infinito universo. Ao assegurar que as ações e os desejos humanos não são frutos da vontade e da vaidade humana, mas sim do nosso inconsciente, Sigmund Freud sacudiu o mundo científico e criou uma nova maneira de entender a psique humana. O que dá a Freud tal importância, a qual ele parece manter mesmo diante do mais feroz dos seus críticos. Podemos refletir sobre tal questão ao considerar a extensão e a natureza da transformação que ele trouxe para a psicologia. Antes de Darwin, a psicologia, assim como as ciências naturais em geral estavam profundamente enraizadas na religião. Da mesma forma pela qual, o físico e cristão devoto Isaac Newton examinava a natureza, na esperança de desvendar os segredos de seu criador divino, aqueles que estudavam a natureza humana eram conduzidos por exigências religiosas semelhantes. De fato a psicologia não era originalmente mais do que uma vertente da teologia cristã; a própria palavra foi criada, no século XV, por teólogos dedicados ao estudo da alma. Tal como várias formas de saberes modernos, a psicologia, como disciplina que emergiu gradualmente durante o século XIX, conservou várias suposições e hábitos mentais pertencentes à idade da fé. Tinha suas raízes, de um lado no pensamento de Platão, e, de outro, nos ensinamentos religiosos cristãos. O que as tradições: platônica e cristã têm em comum é a crença de que seres humanos são feitos de duas entidades distintas - um corpo animal criado por Deus e um espírito, mente ou alma dado por Deus apenas ao homem. A psicologia estava interessada na alma dos seres humanos. O interesse dela em fenômenos cognitivos como memória, inteligência e percepção é uma herança desta perspectiva centrada na alma. Ao criar a psicanálise no final do século XX, Freud modificou essa perspectiva que existia até então. Uma disciplina que, antes, se interessava apenas por um extrato seleto e relativamente puro da existência humana, se viu, de repente diante do todo da vida humana. Os mais profundos sentimentos de homens e mulheres, e acima de tudo seus impulsos sexuais, claramente excluídos da filosofia por Platão, como forma de corrupção intelectual, foram então postos como tema central desta nova ciência, a psicanálise. O enorme apelo de uma forma de psicologia que coloca-nos de frente com um dos assuntos mais fascinantes que há ­ nossa herança animal e, acima de tudo, a natureza do desejo sexual humano, assim como a variedade de comportamentos sexuais ­ não deve ser subestimado. Provavelmente, seja por causa deste apelo que muitos não hesitaram em alçar Freud à condição de verdadeiro revolucionário intelectual, tal como fora Darwin. A fim de podermos avaliar se as realizações de Freud merecem a posição de nobreza que desfruta em nossa cultura, faz-se necessário expor como a psicanálise veio à luz e por que Freud colocou o sexo no centro da ciência por ele criada. A história da psicanálise está intimamente ligada com a vida de Sigmund Freud. Ele nasceu em 1856 em Freiburg, uma pequena cidade da Moravia, que se tornou parte da Tchecoslováquia. Quando Freud tinha quatro anos, seu pai, um comerciante de lãs judeu, mudou-se com a família para Viena. Freud cresceu, foi educado e clinicou em Viena durante toda a sua vida. Em 1938, fugiu dos nazistas, mudando-se para a Inglaterra, onde morreu no ano seguinte. Freud foi, antes de tudo, um cientista empírico. 

Acreditava que a chave para desvendar o segredo dos processos mentais seria encontrada no estudo da fisiologia do cérebro. A abordagem dominante da fisiologia humana na Europa durante os anos de formação de Freud era a escola de fisiologia de Hermann Helmholtz. De acordo com os princípios desta escola, os processos fisiológicos e mentais eram produto de leis causais e seqüências que poderiam ser reduzidas aos princípios da física, como o princípio da inércia e da conservação de energia. Charles Darwin, que era muito discutido nos círculos científicos da época, também influenciou Freud. Em função da sua criação na tradição judaica, Freud tinha uma profunda estima pela palavra. Manteve em sua vida, o fascínio pela literatura, particularmente pelos escritos de Johan Wolfgang Von Goethe e William Shakespeare. Por intermédio da sua familiar idade com a literatura e religião, Freud familiarizou-se com os papéis do simbolismo e do significado para entender as complexidades da mente humana. O pensamento de Freud sempre manifestou um elemento romântico, e não foi ao acaso que tenha sido agraciado com o Prêmio Goethe de literatura. A experiência de Freud na faculdade de medicina trouxe as bases para sua orientação científica posterior. O predomínio intelectual da época era o empirismo científico. Sua ênfase na medição e observação estava substituindo o misticismo e o romantismo que haviam impregnado o pensamento científico na Europa Central na primeira metade do século XIX. Durante os anos de estudo da medicina, Freud foi profundamente influenciado por dois mentores, Ernst Brücke e Theodore Meynert. Estas duas figuras dominavam a pesquisa fisiológica na Europa durante aquele período. Freud também trabalhou no laboratório de Brüke e considerava-o, em particular, um modelo cuja integridade e disciplina científica deveriam seguir. Brücke, Meynert e Exner apoiavam a idéia de que o sistema nervoso opera por meio da transmissão de excitações quantitativamente variáveis de terminações nervosas aferentes para as eferentes. 

Como a base química da condução neural era pouco entendida, supunha-se que a condução era de natureza elétrica. A noção central do pensamento de Brücke era de que a mente e o corpo são organizados por intermédio do paralelismo psicofísico. O arco reflexo era seu modelo de funcionam ento neural. Em outras palavras, nenhuma atividade central espontânea existe no sistema nervoso; ele meramente funciona como um instrumento passivo que permanece inativo até ser estimulado por energias exógenas. O resultado final do estímulo é a redução da irritação que ingressa a um mínimo. Essa fisiologia de forças e energias, baseando-se fortemente na doutrina da conservação de energia, exerceria um efeito de longo alcance sobre o pensamento de Freud. Após a graduação na escola médica, Freud continuou a trabalhar no laboratório de Brücke durante um ano. Foi lá que ele desenvolveu sua ambição científica predominante. Sua idéia era aplicar os princípios de Brücke ao sistema nervoso. Ele estava convencido que tanto manifestações psicopatológicas como o funcionamento mental normal poderiam ser explicados em termos das forças e energias que regulam o sistema nervoso.A pesquisa de Freud foi interrompida quando ele se deu conta de que o trabalho de laboratório não era suficiente para gerar a renda necessária para sustentar a família. Ele havia se apaixonado por Martha Bernays e foi forçado a iniciar a atividade clínica para prover um padrão de vida adequado à sua noiva. Em 1882, começou a trabalhar como clínico geral no Hospital Geral de Viena. Após uma passagem pelo serviço cirúrgico, começou a trabalhar na clínica psiquiátrica de Theodore Meynert. Há uma breve discussão com Meynert sobre os seus pensamentos, quando foi intimidado por esse, com um escorpião preto que mantinha em seu gabinete dizendo-lhe para não despertar o que é de mais oculto no ser humano, o que vive nas sobras da escuridão ­ o inconsciente. Este episódio é representado no filme Freud Além da Alma. O contato de Freud com a neuroanatomia e a neuropatologia, sob a carismática liderança de Meynert, levou-o a escolher a neurologia como especialidade. O estudo sobre psicose alucinatória aguda de Meynert exerceu um efeito duradouro sobre Freud e contribuiu para o conceito de satisfação de desejos, que posteriormente viria tornar-se uma parte central da sua teoria do inconsciente. O primeiro embate mal-sucedido, com a fama ocorreu em 1885, quando depois de realizar experimentos com cocaína. Ele buscou reconhecimento acadêmico, publicando um artigo que descrevia a droga como uma terapia miraculosa. No entanto, ao escrever tal artigo, deixou de observar as propriedades cruciais da droga como anestésico local, ao mesmo tempo em que omitia a necessidade de prevenção contra o vício. Mas, Freud não se deixou dissuadir por tal episódio desafortunado. Ainda em 1885, recebeu uma bolsa que lhe permitiu estudar de outubro de 1885 a fevereiro de 1886, na Salpetrière, em Paris. Lá sua carreira foi poderosamente influenciada pelo grande neurologista francês Jean-Martin Charcot. Charcot especializara-se no tratamento de pacientes que sofriam de uma variedade de sintomas físicos não explicados, incluindo paralisia, contraturas músculos enrijecidos que não podiam ser relaxados e ataques. Alguns destes pacientes adotavam uma postura bizarra chamada de arc-de-cercle, no qual se jogavam ao chão e arqueavam o corpo para trás até ficarem apoiados apenas pela cabeça e pelos calcanhares.


Charcot Charcot em suas aulas em Salpetrière. Finalmente Charcot concluiu que muitos de seus pacientes sofriam de um tipo de histeria induzida por suas reações emocionais e acidentes traumáticos do passado ­ como cair de um andaime ou ser vítima de um acidente de trem. Em seu ponto de vista, eles não sofriam dos efeitos físicos do acidente, mas da idéia que tinham formado sobre ele. Sob a influência de Charcot, Freud ficou fascinado pelo problema da histeria. Enquanto a maioria dos neurologistas não levava os fenômenos histéricos a sério, Charcot via-os como dignos de um estudo cuidadoso. Embora os considerando relacionados a uma degeneração congênita do cérebro, enfatizava o papel da hipnose no tratamento dos transtornos histéricos. Quando Freud observou o surgimento de manifestações histéricas pelo uso da sugestão hipnótica, começou a considerar a possibilidade de que a histeria tivesse origem psicológica. Freud desenvolveu a idéia de que uma das principais formas de neurose ocorre quando uma experiência traumática leva a formação inconsciente de sintomas. Através da ciência da hipnose, Charcot com seus discípulos puderam provar a decadência de um povo vivido sobre longo tempo de opressões e miséria econômica. Sigmund Freud foi muito mais longe ao perceber que o homem que não comunica tudo aquilo que está reprimido dentro de si, que não dá oportunidade a livre expressão, pode lhe causar danos profundos em seu psiquismo. Para Freud, Charcot era um libertador, por ter analisado o homem profundamente adoecido desde a época medieval, sobretudo, o que o efeito da religião, da política e da sociedade poderia fazer sobre o ser humano.

Freud retorna a Viena, continua seu debate com Breuer, ficou familiarizado com o método "catártico" de tratamento de Breuer. Este descobriu que a paciente "podia ser aliviada de (...) estados enevoados de consciência, se fosse induzida à fantasia afetiva, pela qual estava no momento dominada". Com o resultado disso, Freud gradualmente afastou-se do emprego da hipnose, como auxílio na rememoração de lembranças antigas e substituiu por uma técnica de aplicar pressão com a mão na testa do paciente, enquanto o incitava a concentrar-se. Desta maneira, gradativamente, deslocou-se para o sentido da técnica da associação livre, que parece ter sido empregada já em 1889 no tratamento de Emmy Von N., o primeiro caso a ser apresentado nos estudos de histeria. A exploração da sexualidade por Freud achava-se diretamente em linha com os interesses centrais de toda a sua carreira científica. Em seus escritos, surgiu um contexto com fortes tons políticos e religiosos, estreitos relacionamentos, que ele percebia entre a histeria e a cultura medieval. Freud retornou a Viena em 1886, decidido a continuar com seu duplo interesse em hipnose e neurologia. Na busca de mais conhecimento sobre as aplicações clínicas da hipnose, viajou para Nancy, na França, para estudar com AmbroiseAuguste Liébault, que estava tentando remover sintomas neuróticos por meio de sugestões hipnóticas. As observações sobre os usos terapêuticos da hipnose convenceram Freud de que poderosas forças inconscientes estavam envolvidas na motivação e no comportamento humano. Ele também percebeu que os próprios médicos podem desempenhar papéis significativos como instrumentos de mudança terapêutica. Em 1891, apareceu o primeiro grande trabalho neurológico de Freud, intitulado Afasia. Ele trazia uma explicação funcional para variações de transtornos afásicos em termos de rupturas de vias associativas irradiantes. Naquele mesmo ano, com Oscar Rie, um pediatra, ele foi co-autor de um importante trabalho sobre paralisia unilateral em crianças. Dois anos depois, ele escreveu uma volumosa monografia sobre paralisia infantil que recebeu grande reconhecimento. Concentrado em ancorar a psicologia na neurofisiologia, Freud lutava para aplicar os princípios da escola de Helmholtz aos mecanismos da mente. O resultado foi seu trabalho intitulado Projeto para uma Psicologia Científica. Freud ficou insatisfeito com o que escrevera e desejava destruí-lo. Este trabalho foi publicado postumamente, em face do reconhecimento de que tivera uma influência de grande alcance sobre as idéias posteriores de Freud. A explicação de Freud era que a dor poderia estar associada a um excesso de excitação nervosa e o prazer poderia ser visto como o resultado final da descarga desta excitação. Na raiz da teoria, estava um modelo de sistema nervoso que se apresentava como um recipiente passivo de estímulo de forças externas e um conceito de motivação em termos de tensão ou redução de impulso. Freud baseou-se no princípio da constância de Helmholtz. Esta teoria insistia que a soma das forças deve permanecer constante em qualquer sistema isolado. Em seu Projeto desenvolveu a idéia de que os processos mentais constantemente se empenham em obter equilíbrio ou homeostasia. Freud, quando escreveu o Projeto, acreditava que se uma pessoa experimentasse uma impressão psíquica, algo em seu sistema nervoso, que ele chamou na época, de a soma de excitação, aumentasse. Existiria em cada sujeito, uma tendência constante a diminuir esta soma de excitação, a fim de preservar sua saúde. Este princípio de constância serviu como a fundação econômica para a teoria dos instintos de Freud. Embora muitas das idéias de Freud em seu Projeto tenham sido confirmadas por estudos neuropsicológicos mais sofisticados, ele não obteve sucesso na tentativa de sintetizar o psicológico e o neurológico. Em alguns de seus trabalhos, Comunicação Preliminar (1893) e Estudos sobre a Histeria (1895), as noções da descarga de afeto e excitação cerebral derivam das idéias geradas no Projeto para uma Psicologia Científica. Além disso, o modelo da mente apresentado na obra principal de Freud, A interpretação dos Sonhos (1900), também tinha claras raízes no Projeto. Finalmente, sua compreensão do princípio do prazer-desprazer foi profundamente influenciada pelas teorias básica do Projeto. Inclusive bem mais tarde, em 1920, em Além do Princípio do Prazer, os derivados do Projeto são claramente evidentes. O interesse de Freud pela neurologia clínica diminui gradualmente, entre 1887 e 1897. Sua colaboração com Josef Breuer, um destacado colega mais velho com quem ele trabalhara no instituto de fisiologia de Brücke, levou-o às regiões mais profundas da mente inconsciente, um assunto que desviou seu interesse da neurologia em direção à evolução da psicanálise. Enquanto os dois clínicos lutavam juntos para entender os mistérios da histeria, eles deram a luz à psicanálise como uma técnica terapêutica, como uma disciplina científica e como um método de investigação.

Fonte: http://www.institutofreud.com.br